Sunday, April 27, 2008

cabembromtronçaco

Por entre os ramos
Fui perseguindo-te, rosto sem cabeça.
corpo sem tronco,
mãos sem membro.

Mas a lógica muitas vezes é traiçoeira,
E quem sou eu para questionar a tua existência?

Desfaço-me em pedaços com cabeça, tronco e membros.
Tu continuas fugidia
Sem cabeça, tronco e membros.




!!
DESMEMBREM-SE
!!

Monday, January 07, 2008

Retrato de alguém como nós




Passaram-se 5 meses depois da última carta. Um ano depois do desfecho de todo aquele sonho, o jovem Colar estava sentado a ver mais um daqueles programas desinformativos, a comer bolachas mais que torradas do LIDL e a beber um sumo concentrado de morango cheio de corantes e conservantes. A sala até estava bem decorada tendo em conta o mau gosta dos móveis daquela casa alugada. Móveis com flores indecifráveis detalhados pela sua madeira castanho-falso, a única coisa que dava vida eram uns panos coloridos e uma cadeira do IKEA. Eram 6 da tarde e Colar desfrutava dos descanso merecido depois de um dia inteiro a arrastar os olhos por um computador das finanças. Colar era um fracasso, um dos muitos talentos perdidos, com o sonho da poesia e da escultura acabou nos números sem necessidade de grande esforço matemático. Perdido na vida, perdido na morte, perdido no trabalho, perdido no descanso, perdido no amor Colar era mais uma alma desalmada como tantas outras.

[O jovem Colar tinha 25 anos, cabelo castanho claro, cara triste e desmanchada pelas olheiras, olhos castanhos esverdeados encobertos pelo nevoeiro dos fumos consumidos há 10 minutos, calças russas (gastas de tanto uso), t-shirt vermelha]

A campainha toca, não de surpresa, antes pelo contrário, tinha à porta a sua dose de vida sexual necessária para sobreviver mais uma semana sem alguém permanentemente a seu lado que o satisfaça não só na arte do sexo. Naida, uma jovem de 20 anos vendedora de serviços libidinosos, entrava sem uma palavra, pousou o casaco na porta da cozinha e perguntou:
-Onde vai ser hoje?
-Pode ser aqui mesmo, na cozinha. Se não te importares.
Naida soltou um sorriso leve e ripostou:
-Desde que me pagues e não me peças fetiches demasiado obscenos por mim, tudo bem.
Naida ao ver nos olhos dele um fulgor a nascer retirou a roupa numa fracção de segundos, Colar seguiu-a na arte de desnudar pessoas. Foram de encontro um ao outro e, sem grande pormenor para descrever tiveram duas horas quentíssimas em chão geladíssimo.
-Então até terça querido! – com uma nota de 100euros despediu-se com um sorriso na cara, que nada demais dizia a não ser um obrigado escusado pelo pagamento.
Fisicamente exausto, mentalmente vazio, deitou-se sobre o seu sofá decorado com formas geométricas muito mal colocadas e coloridas. Pensava e não pensava, desde à 1 ano que decidiu pensar no que não interessa, dedicou-se a ler revistas de pesca, astrologia, humor seco, banda desenhada sem conteúdo e também algumas de bordados e culinária.
A hora do jantar entre amigos na pizzaria da sua rua chegara, amigos secos estes. Durante o jantar as conversas rodopiavam no eixo de temas relacionados com desassuntos de homens, aventuras com mulheres que não existem, trabalho que destrabalha a alma de uma pessoa e sobre, acima de tudo, sobre o tempo. Colar levantou-se no fim e foi pedir um whisky ao balcão. O copo nem de whisky era, feito de um vidro fino prestes a partir e ele apercebeu-se da sua fragilidade. Agarrou-o, apertou-o nas suas mãos até que este cedesse nesta luta desigual. Agarrou firmemente na base do copo e sem pensar em assuntos desinteressantes desferiu três golpes no velho homem velho sentado ao seu lado. Matou-o.
Olhou para empregada do balcão e perguntou:
- Não sei se mereceu mas veja lá, foi bem morto ou não!?
Pousou o dinheiro no balcão, olhou à sua volta e viu o que já não via à muito. Conseguiu com que todas as pessoas à sua volta se transformassem em estátuas, em esculturas e expressões que ele próprio idealizou. Gritou:
- Viva a arte do movimento cimentado! Ah Ah! Viva vocês! Camaradas imóveis!
Vestiu o casaco por cima da t-shirt vermelha e, cheio de orgulho saiu da pizzaria.

[Continua]


Fotografia: My Dinner With Andre by londonxpress

Tuesday, December 04, 2007

Stoned

As nuvens, os violinos.
As guitarras, os rios.

Este halo de tons
Viagens
Descobertas
Experiências

Esta volta ao mundo sentado,
De charro para fazer
Com mágoas para fumar.



Fresta de Luz, 29 de Novembro de 2007

Panorama

Luzes alaranjadas,
Rios com reflexos de luzes alaranjadas
Ruas velhas, podres, sem alma, meio alaranjadas.

Luzes nas casas quadradas amareladas
Pessoas como as sombras,

[de lâmpadas amareladas.]

O fulgor matinal da cidade,
A corrida, o atropelamento, os gritos de toda a maquinaria!
O ar putrefacto, os galões de petróleo!

As buzinas misturam-se numa cacofonia hilariante! De rir mesmo!
Ah! Ah! AH! AH!
Vamos rir!
Rir desta vida à velocidade da luz!
Vamos parar! Suster o ar!
Vamos sonhar!


Sonhar com um novo panorama!


Fresta de Luz, 29 de Novembro de 2007.
Covilhã

Sunday, August 19, 2007


Pause by FredG

Pausa


Um passo em frente
E
Trespassei a ténue glandula temporal,
Que segrega continuamente a velhice.


Os relógios à minha volta pararam,
Relógios de todas as formas, cores e almas.
Uns mais carrancudos, outros alegres e bem-dispostos
E alguns solitários e anti-sociais.


O momento já não o é,
O presente não existe.
Nem passado nem futuro.


A mente perde-se na confusão temporal,
Na ansia de memorizar o que vive,
Mas é-lhe impossível memorizar o que quer que seja,
Não existe passado para memorizar.


Eu perco-me em frustrações,
Tornando-me num ser morto e sem ambições,
Sem perspectivas de um futuro que não existe.


Estático
Com tempo para tudo e sem tempo para fazer algo.


Hilariante
Por querer aproveitar uma pausa eterna que,
Na realidade não é eterna nem fugaz.
É uma pausa.




André Ventura

20 de Agosto, 2007

Thursday, May 03, 2007

Cubicle 2 by psychohazard
[Antes de me sentar num culminar de 3 arestas de um cubo
Numa sala cinzenta de cadeiras esbranquiçadas
E luz branca uniforme e baça]

Sento-me
A minha senha é a 3845 e vai no número 354

Terei de esperar nesta sala sozinho
Nesta sala de espera agoniante,
Nesta sala onde se espera pelo libertar do eu.

Nesta sala onde os gritos
Se propagam à velocidade da realização de um sonho.

Tudo aqui é lamacento e lento
Até os movimentos mais íntimos de raiva
Ganham harmonia.

Nada aqui é passível a libertação
Nesta prisão(sala)
Tudo é preso
Tudo é belo
Tudo é uma constante agonia harmónica.

Tuesday, May 01, 2007

Retratos do passado

Desvario Absoluto


Dias atribulados correndo na enchente de alcatrão absurdo e extasiante. Roubam-me o tempo, a vida a Poesia!! Por meia dúzia de números, sabem que mais?! Que se foda... Cagarei para a vida ou para o campo lexical usado neste texto, neste texto ultrapassarei barreiras e nem me darei ao trabalho de o corrigir ortograficamente.
Levanto-me às 8h07(apenas uma estimativa)-aulas até às 23h, sim porque com a fadiga do dia o cérebro já não carbura o suficiente depois das aulas e o minímo esforço que faz já é como um ´rduo trabalho para nós.
Com que arrogância e hipocrisia e que estes horários entraram-me na vida e roubaram-me tudo, olha já agora furtem-me o cansaço, está bem?! Pois esse vocês não querem. Pobres e mal agradecidos tal como todos os media, governantes ou representante de graduação maior, só escolhem o que vos interessa.
Sim apeteceu-me critícar hoje, mas também irei elogiar:
Oh Nada! Como és simples e eu nem te conheço. Gosto de ti.(agora ouviria-se a expressão "e ponto final")
Desabafarei sobre correntes que amordaçam as frágeis e dóceis mãos do meu povo, as coprrentes da ignorância e ceguez. Coitados logo à nascença é-lhes atirada areia para os olhos através de um conto que todos contam a estas crianças que é;"Portugal um PARA�?SO à beira mar-plantado". Mas este não se aplica o provérbio "Quem conta um conto acrescenta um ponto", este deverá estar inalterado desde os descobrimentos.
E é tudo, que se foda a extensão ou recursos estílisticos.
Peço desculpa a todos mas saiu-me, um desvario em forma de impulso.
UM BEM HAJA


Amo-te Nefv


retirado do meu antigo blog, www.photoblog.be/splitbtg, postado em 17/5/2005

Thursday, April 26, 2007

Conto Amorado

“Fresta de Luz Cidade Luzente

Cara amoradinha ______ , escrevo-te com a promessa de uma carta que deveria ter escrito há algum tempo! Aqui pela cidade Luzente vai tudo bem!”


De repente alguém bate à porta, lançando esbaforidos
- Fresta abre depressa!
Fresta pousou a pena manual no tinteiro e levantou-se calmamente. Vestiu o seu enorme casaco que só tinha uma manga e abriu a porta.
-Que se passa Brisa? - perguntou enquanto fazia um gesto com a mão convidando-a a entrar.
-Nada de muito especial! Mas queria-te avisar que na Cidade vai haver uma festa com todos os Elfos dos arredores! Vai haver muita magia e misticismo! Queres vir? - já era normal Brisa fazer tanto alarido por coisas aparentemente casuais, no entanto, Fresta achava imensa piada esta situação.
-Não me parece… Tenho de acabar uma carta.
-Pois! Tu e a mania das penas tradicionais… Porque não usas uma mágica? Sempre era mais rápida!
-Mas torna a escrita impessoal! - Concluiu esboçando um sorriso suave.
-Bem. Sendo assim irei eu mais o Elfo Saturno. Fica bem! É pena não vires… Mas para a próxima não nos escapas!
-Ah ah! Fica prometido! E manda um grande abraço ao nosso Elfo Satu.
Na Cidade Luzente, era pouco usual haverem festas com Elfos, mas Fresta decidiu tirar a sua noite para escrever uma carta que havia prometido. Mesmo sabendo que a noite ia ser bem alegre, com as ruas iluminadas por bolas de fogo de todas as cores e arco-íris de mil cores projectados nos céus estrelados, enormes paradas de elfos a dançarem e a deslizarem pelo ar. Os elfos eram todos capazes de flutuar, tinham imensos cabelos compridos vermelhos que chegavam aos joelhos, e por eles saltavam as suas orelhas pontiagudas. Todos eles traziam trajes verdes, que mais se parecia com folhas enormes enroladas no corpo. Os olhos deles também eram alongados como os de Fresta. Cidade Luzente era uma cidadezinha assente num pequeno vale onde a água escorria incansavelmente , por uma pequena ribeira com árvores enormes e de troncos ásperos mas sapientes, trazendo vida a todos os seus habitantes.

A sua noite iria ser estrelada, iria ser colorida, iria ser uma festa toda ela dentro da sua solidão. Fresta era um jovem fugidio, livre, alegre e triste, bom e mau, inteligente e estúpido. Era moreno, tinha cabelo liso a tapar o olho direito, normalmente usava um casaco enorme de pele castanha clara a cobrir apenas um braço, os seus olhos eram castanhos e andava sempre de arco e flecha atrás.
Acabou a carta eram 04:04, levantou-se penosamente da sua cadeira em direcção à cozinha. Estava a despejar um bocadinho de chá e, por trás, subitamente, umas mãos cerraram-lhe os olhos. Fresta já as conhecia, eram as mãos de Lionah. Uma jovem esbelta e simples, com uma pena a enrolar o cabelo castanho ondulado, um enorme vestido creme amarrotado, e de capa atrás.
- Ah ah! Sabes bem que essas partidas já não me enganam!
- Pois eu sei, mas continua a meter piada.. Então Fresta como correu a tua noite? Ninguém te viu pela festa. Ias adorar ter visto os arqueiros que lá estavam a lançarem enormes flechas às cores escrevendo no céu palavras…
- Pois.. A minha noite…. A minha noite fui eu agarrado aquela pena, a escrever uma carta. Eh eh.. - De Fresta saiu um sorriso encolhido.
- É Ela?
- Pois… Sabes, cada vez sinto-a mais cá dentro mas nem a conheço. É estranho…
- Senta-te aqui comigo! - Sentou-se ao lado de Lionah, e uma pequena lágrima escorreu do seu olho alongado nas extremidades, semelhante ao hieróglifo egípcio. - Oh… então amigo? Sabes bem que assim é que não matas as saudades, se é que elas possam existir neste caso! Temos é de nos concentrar no plano de como ir ter com ela.
- Pois… Mas daqui até lá… A dor permanece, os velhos levantam-se, as crianças deitam-se mas, ela permanece. As estações podem inverter, o mundo pode ficar quadrado mas a dor será sempre dor…
- E o amor também será sempre amor! - Piscou o olho a Fresta e com os seus dedos retirou ao ritmo do vento a lágrima - Já é tarde, vai dormir!
- Pois.. Amanhã também tenho de me levantar cedo. Então, até amanhã Lionah! Obrigado…
Lionah sorriu, e saiu pela porta. No entanto a vontade dele não era ir dormir, nem sequer descansar era estar presente no tempo e no espaço, era distorcer estes dois elementos e poder manipulá-los. Sentado na cama pensava e pensava mas não pensava. Chorava e chorava mas não chorava. Observava e observava mas não observava. Em suma, não fazia nada, estagnou no tempo e no espaço, os relógios pararam, Fresta também, os olhos começaram a rodopiar a cabeça a ferver e como um ser gelatinoso tombou para cima da cama.



A queda era enorme! Um enorme túnel era percorrido a milhares de metros por segundo! No entanto a pressão do ar não era sentida, as suas roupas ondulavam levemente através daquelas luzes anelares! As batidas do seu coração eram lentas e compassadas. A respiração era tranquila e nem se fazia sentir. Os lábios continuavam molhados. E os cabelos ondulavam como seda reflectindo todo aquele halo de luzes.
Num segundo, toda a queda parou leve e imperceptivelmente. Fresta estagnou no ar, no meio de um imenso ribeiro roxo, as cores todas elas lhe eram estranhas. Os seres eram belos, semelhantes aos que ele conhecia mas com uma aura que o fazia sentir-se estranho. As árvores eram todas elas milenares com troncos com mais de 7 metros de diâmetro, e copas que mais se assemelhavam a Bonsais genuínos.
Pousou as pernas, deu um primeiro passo em falso caindo junto de uma flor azul, semelhante a um cravo, mas com pétalas muito maiores, de onde ainda brotavam incansavelmente as luzidias gotas do orvalho que faziam estremecer no ar as cores do prisma de cristal. Ainda se sentia meio zonzo com toda aquela queda. Com toda aquela viagem! Toda aquela mudança! E tudo isto!
No seu cérebro o lado racional já se tinha esgotado. Toda aquela confusão fez desaparecer todo o racional possível.
As perguntas eram muitas e as respostas ou não surgiam ou tendiam a surgir o mais estranhas possível. Queria-se levantar para ver e confirmar, no entanto, o seu medo perante o desconhecido era enorme. Esperou! Pensou! E ainda esperou mais! Não deixando de Pensar!
A mão saltou num reflexo rapidíssimo em direcção ao arco e às flechas! Os dedos enrolaram as armas à sua volta com uma tremenda força fazendo com que todas as veias do braço palpitassem constante e velozmente! Saltou e colocou-se de pé à velocidade de uma fresta de luz, o arco já se encontrava apontado e a flecha segura. No entanto, Fresta baixou imediatamente as armas. O mundo que se opunha à sua frente era de Luz. Nada ali tinha razões para se considerar uma ameaça, antes pelo contrário, tudo ali tranquilizava a alma de qualquer ser.
Era um imenso verde de bonsais gigantes, de águas cristalinas lilases, e flores de cores sem fim. Por todas aquelas copas gigantes passavam , inexplicavelmente, infindáveis raios de luz que reflectiam no chão uma pequena névoa de partículas de luz. Os odores eram uma enorme miscelânea de sensações alegres, tudo ali se identificava com a memória. “Mas que memórias são estas?”. fresta interrogava-se constantemente, conhecia aquele lugar, aqueles cheiros, mas não se recordava sequer de uma imagem igual.

Sunday, April 22, 2007

Amo o delírio

adoro o delírio, certas vezes, quando o amor é imenso, sento-me calmo e consciente no meu sofá de pernas partidas (nunca vi um sofá de pernas inteiras) e observo o meu delírio actuar.
corre e percorre a sala de um lado para o outro da sala com as paredes mal pintadas. salta entusiástica e nervosamente enfiando a cabeça no tecto. aí permanece cinco minutos como alguém que tenta acalmar, mas mal a parede racha o delírio volta à acção! Liga a Tv, faz zapping, liga on internet, navega sem sentido, ouve rádio sem se aperceber do que ouve. Ahhhhh! Orgasmo mental de uma vida contemporânea completa! Publicidade! marketing! stress! fome de esperma mental! os rins já nada filtram! urina transparente!

Wednesday, December 27, 2006

Com as mão ao sabor do vento

foto: Bonina de Fresta


Com as mãos ao sabor do vento


Com as mãos ao sabor do vento
Deslizando no ar como folhas ensopadas
Pelo orvalho
Escorre a ironia
a [insana] insanidade

Desembrulham-se das folhas
Pequenas partículas de ódio,


A rapariga agarra na folha e Sorri
Ergue a folha à mãe e diz:
- Queres ver?
E beijou a folha com ternura. Nesse momento
Sem vento
A folha levantou ao sabor do vento
Levando agora outras mãos.


André Ventura 28/12/2006

Sunday, July 23, 2006

Futuro do Incondicional

Futuro incondicional

Tu hás-de correr
Pelas colinas da amargura
Vislumbrando pradarias de cereais mortos.

Correndo gastarás energias e
Caíras.

No meio da ceara
No meio da noite
No meio da vida
No meio do amor

Pensarás, Crescerás
em ausência prematura do encontro...

Bate
Bate
Bate
Sufoca
Mata
Vive
Não corras
Olha-me!!!

Mil e quinhentos pés de altura
Conseguimos voar
Superar barreiras!

E de hoje em diante
Nada será
Nada existirá

Apenas um sorriso
Se propagará na distância
Da não existência
Porque o amor não é palpável!
Porque o Amor existe!

Assim estaremos juntos!
Em maresia de pérolas
Em vácuo da tristeza
Na inexistência da existência!

Seremos Felizes...

André Ventura

5/07/2006

Sunday, December 04, 2005

Estação Surreal

A Estação Surreal



A cada risco que traço
Uma mancha d’ouro
Alastra pela cidade de chumbo.

A cada lança que lanço
Uma nova estação surge
No deserto férreo.

Assim nasce a estação.


E na estação
Um idoso de face pálida
Ostenta uma lança na mão,

Vê as horas
Confirmando
O atraso.

O relógio
É preto, branco
E redondo

O homem
Velho, engelhado
E esguio

E a lança
Aerodinâmica, de madeira
E aguçada.


O relógio atrasou-se
E o comboio chega adiantado,
Nesse instante

O tempo ficou estático

E o homem
Navegando contra o tempo
Balança ligeiramente o corpo

Provocando
Um breve desequilíbrio
Obrigando uma perna a avançar,



Os braços movem-se
Permitindo assim
Um equilíbrio,

Completando o processo de bipedia.

Depressa alcançou
O comboio
Onde 10 lugares vagos o preenchem,

Senta-se no nº3
Sobrando 7 atrás de si.

De cara apoiada no punho
Olha-me
Com olhos castanhos

De sobrancelhas carregadas
E pestanas pesadas,
Fixa-me..

O meu olhar
Depressa desfocou
E assim o deixei permanecer

Até que
Um som monótono
Surge distante

É o tiquetaque
Do relógio preto e branco
Que acelera para compensar o atraso.

O comboio arrancou
Mas a lança ficou no banco
Peguei nela

E sentei-me no banco
De madeira negra
E chão branco

À espera do comboio
Naquela estação estática
Onde o tempo anula a imortalidade.


André Ventura
15/10/2005

Tuesday, October 04, 2005


"Visões Nocturnas" de Filipa Scarpa (www.fotografia-na.net)


Sonhando

Choro da maresia(parte I)

Via-te a correr naqueles campos desnivelados com um tom de verde gracioso

onde o Sol fazia com que o orvalho parecesse pequenas pérolas a treparem as folhas

dos lírios.

Eras bela, engraçada e eu não me cansava de te ver com aquele cativante

vestido branco manchado(uma oferenda da terra solta). Até que, enquanto corrias caíste

para cima das minhas pernas e pela primeira vez focaste os meus olhos (eram tão belos

os teus...castanhos).

Parecia um combate intenso em que as retinas se mutilavam para brilhar mais que

as adversárias, mas eu não resisti e de repente esse brilho vidrado transformou-se

numa pequena gota do mar.

Afastaste a tua cara, mas pousaste as tuas frágeis e delicadas mãos na minha

face como movimento de piedade e sussurraste:

-Teus olhos choram. Choram o Mar...

-Outrora choraram rios correndo freneticamente para o Mar.- Respondi tentando

atenuar o meu choro.

De olhos fechado (parte II)


E fez-se silêncio. Foi durante esse momento ensurdecedor de silêncio que atravessei o ventre do mundo, finalmente estava no plano da magia, eu sonhava como nunca sonhei.
Foi nesse momento que comecei a sentir o vento cantando as árvore, as nuvens a tocarem-me ao de leve fazendo precipitar os poros da minha epiderme, a brisa atrevida secando os meus lábios, o ar indeciso entrando e saíndo das minhas vias respiratórias, nesse momento eu senti...
Decidi aproveitar o momento sabendo que este poderia ser breve como o relâmpago inspiratório para a construção do poema e, simplesmente, deitei-me. Desfrutava daquele pano de fundo azul, aquele céu, com uma erva seca no canto da boca (aquela imagem tradicional do acto de reflectir sobre o vago).
E de repente, fartaste-te daquele silêncio debruçaste-te sobre mim com as mãos ao lado dos meus ombros e os teus cabelos deslizaram sobre o oxigénio até tocarem-me na face. Estrangulas-te aquele silêncio arrebatado até à morte e disses-te:
-Olha-me!
-Estou a olhar, como poderia perder tal prazer. Ver esse teu vidro aquoso com ramos castanhos escuros entrelaçados possuindo um orifício negro misterioso, não consigo deixar de olhar para essa tua irís. Como hei-de conseguir?- Respondi e questionei, sem saber o que realmente falava.
-Simples, fechando os olhos - Disse ela no seu tom melódico passando seus dedos semi-abertos nos meus cabelos embrenhados.
-Se é tão simples fecha-mos. -tentei-a a conseguir resolver o enigma.
E assim me fechas-te os olhos, fizeste-me deixar de ver os espelhos da tua alma, fizeste-me algo...
Finalmente sorri para o mar, descobri que este acolhia amistosamente os rios, finalmente os rios se salgaram, finalmente salgas-te os meus lábios.
O beijo prometido......

Nada de Novo(parte III)

Meus lábios ficaram salgados, e tu continuavas a olhar-me fixamente à medida que afastavas o teu corpo envolvido num efeito contra-luz com os raios do pôr-do-sol. OS teus movimentos eram frios, gélidos, quando eu tentei-te agarrar os teus dedos…deslizaram.
Uma lágrima deslizou no canto do meu olho e em poucos instantes tinha a cara salgada, mas não dos teus beijos! Mas sim de lágrimas minhas!
Aos poucos desapareceste naqueles raios de luz quase mortos como o meu coração. O amor de sangue que por ti sentia depressa se tornou numa carnificina auto mutiladora sentimental.
Passei a noite ao relento, sem lágrimas, sem água, sem alegria, apenas com um bocado sal extremamente seco colado nos lábios.
Gesto triste…o meu levantar. Olhei fixamente uma constelação, cujo nome desconheço, mas também não interessa! Não era nada de especial! Mas a lua estava enorme e cheia! Como há 7 dias atrás, nada mudou…

Andei sempre em frente naquela escuridão até que avistei fumo no horizonte descobri ser de um pequeno casebre, com uma horta de reduzidos dimensões guardada por um manso e receptivo rafeiro sempre de cauda a abanar, pobre inocente criatura.[E se eu te quisesse matar!?]Dei umas festas no cão, e pela janela de madeira com tinta rosa estalada observei uma bela idosa a fazer crochet numa cadeira baloiçando ligeiramente. Olhei-a durante 5 minutos e fiz-me de novo à estrada à procura de algo novo.

André Ventura


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Friday, September 23, 2005

Era uma vez


Sem titulo de Luís Henriques (www.fotografia-na.net)

Era uma vez


Como pensamento vago
Debruçado no horizonte
E suportado
Por um punho cerrado,

Como raio de luz
Iluminando
A cidade adormecida,

Como alma imaculada
Caminhando sobre o fogo
De rosas,

Vem o dia…

O dia,
Em que o homem se ergue,
Em direcção à labuta.

De olhos semicerrados
E coração adormecido
Regará a comida
De outros,

Trabalhará uma vida
Para a sua família,

Chegará a casa
Como ser de lama
Erguido pelo cansaço,

Será sempre o homem
Que ninguém conhece,
Com vestes invisíveis
E passos imperceptíveis,

Será o homem
Que amará o mundo
Sem ser amado,

Será o homem
Que alimenta o mundo
Sem ser alimentado.

E a sua mulher
Todos os dias o espera
Na cozinha
Com a mesa
Meticulosamente ornamentada,

Será ela
Que lhe servirá a sopa
Um pouco insonsa
Por falta de dinheiro.

Mas não há melhor
Do que sopa com amor.

Será ela que à noite
Adormecerá
Os seus inocentes filhos
Com contos contados
Por uma voz de sereia.
(Como só uma mãe sabe)

Para que as crianças
Sonhem
Com um futuro diferente!

André Ventura
21/09/2005

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Tuesday, September 13, 2005

Vida Primaveril


"Regresso de um mundo novo" de Jrgarcia(www.fotografia-na.net)



Vida Primaveril


Em leitos de jardim
E ervas verdes matinais
Acabas por surgir
Vida primaveril

O teu tempo de vida
é Efémero

No meio de correntes
Artísticas
Ganhas realce
Como ballet nunca antes tentado!

Floresces
Em secas anuais
E dás de beber
Aqueles que nem o orvalho conhecem.

Nem tempestades
Te estragam esse poder cíclico,
Pois todos os anos eu espero
E tu vens

Vida primaveril..



André Ventura

13/09/2005

Posted by Picasa

Wednesday, June 22, 2005

Imunidade Lacrimante


"The fall" de Negateven (www.fotografia-na.net)


Imunidade Lacrimante

Amanhã
O Sol secará
A saliva,
Que brotei propositadamente,
Como todos os líquidos.

Mas…
Nos confins dos líquidos,
Apenas um não secará!

Essa lágrima
Que todos temos,
Essa lágrima
Atolada a meu coração.

Brilhante, luzente!
Como prisma dos sentimentos!
Como oásis em corpo humano!

Porém
Esta é como a rosa,
Traiçoeira
No topo (no seu auge!)
Uma flor de beleza extasiante,
Mas com espinhos ao longo de seu caule.

Lágrima…
Cicatriz memorial,
Trago-te comigo
À medida que me matas
Para quando morrer
Ter inscrito na minha lápide
“Morri enquanto VIVI”!

André Ventura
16/06/05

Posted by Hello

Wednesday, June 15, 2005

Eugénio de Andrade


Eugénio de Andrade
Pintura de Mário Botas, 1980



Pequena Elegia de Setembro

Não sei como vieste,
Mas deve haver um caminho
Para regressar da morte.

Estás sentada no jardim,
As mãos no regaço cheias de doçura,
Os olhos pousados nas últimas rosas
Dos grandes e calmos dias de Setembro.

Que música escutas tão atentamente
Que não dás por mim? Que bosque, ou rio, ou mar?
Ou é dentro de ti
Que tudo canta ainda?

Queria falar contigo,
Dizer-te apenas que estou aqui,
Mas tenho medo,
Medo que toda a música cesse
E tu não possas mais olhar as rosas.
Medo de quebrar o fio
Com que teces os dias sem memória.

Com que palavras
Ou beijos ou lágrimas
Se acordam os mortos sem os ferir,
Sem os trazer a esta espuma negra
Onde os corpos e corpos se repetem
Parcimoniosamente, no meio de sombras?

Deixa-te estar assim,
Ó cheia de doçura,
Sentada olhando as rosas,
E tão alheia
Que nem dás por mim.

Eugénio de Andrade
Póvoa de Atalaia, 1923-2005


Só hoje tive a coragem de o fazer.

Um bem haja com lágrimas

Posted by Hello

Tuesday, June 14, 2005


"Where are you inspiration?" André Ventura Posted by Hello

"Empty" André Ventura Posted by Hello

"Moments " André VenturaPosted by Hello